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Artigo de Marcos Gouvêa: um preço para chamar de seu

Estamos vivendo uma nova realidade inflacionária estrutural global balizada pelo crescimento do acesso e uso da internet. Os omniconsumidores pesquisam, comparam e compram onde recebem mais por menos. E isso é um fenomeno global com impacto nas economias locais em muitos países, que altera estruturalmente a inflação, especialmente de produtos.

O fenômeno da expansão do uso da internet tem proporcionado um efeito econômico paralelo que envolve uma pressão crescente sobre os preços dos produtos de toda natureza. O hábito cada vez mais difundido de pesquisar muito mais para comprar está disseminando o que podemos caracterizar como uma onda global de pressão estrutural de redução de preços.

Isso fica muito mais evidente no comportamento dos preços de produtos no ambiente do e-commerce, onde a pressão da rentabilidade nesse canal é constante e crescente, o que gera uma concorrência muito maior, enfrentada pela estratégia de preços dinâmicos, aquela prática que, no extremo e nos modelos mais avançados, induz a um preço que é quase que individual, personalizado, a partir do perfil do omniconsumidor, do momento e de outros aspectos mais.

Mas esse modelo gradativamente migra para o mundo físico, ou se preferirem, para o mundo híbrido do físico temperado com digital, espalhando o fenômeno para além dos canais digitais. Como no caso das recém lançadas livrarias da Amazon.
É um bom exemplo, onde os preços dos produtos não estão expostos e você deve usar seu celular para saber o SEU preço, baseado no fato de ser um cliente Prime, o programa de relacionamento da Amazon, ou não. Ou outros fatores passíveis de serem usados dentro da estratégia de preço dinâmico, resultado de equações e “analytics”, com inúmeras variáveis, que podem fazer com que o preço se altere a cada momento e, no final, seja customizado.

Viveremos um processo de expansão dessa prática que, podemos prever, em breve também estará presente nas lojas do Whole Foods e muitas redes mais. Vamos conhecer o período onde cada um, no limite, terá um preço para chamar de seu.
O impacto global dessa evolução vai amplificar a visão de pressões constantes nos preços dos produtos com reflexos na rentabilidade dos negócios, como já ocorre nos canais digitais e se espalhará com consequências em outros canais de vendas.

Guardadas as devidas proporções, seria o equivalente digital do fenômeno que, em determinado período, impactou a economia norte-americana e que foi chamado de Efeito Walmart. Toda vez que a rede, com estratégia definida de Every Day Low Price, chegava em uma nova região ocorria um fenômeno generalizado de depressão de preços, baixando a inflação daquela região estruturalmente.

O movimento onde os maiores operadores dos canais digitais concentram sua maior atenção nos modelos de Market Places, também pode ser considerada uma das consequências do movimento que vivemos no momento. Os grandes operadores que vinham enfrentando enorme pressão na sua rentabilidade operacional para crescer sua participação no canal digital, com sua linha tradicional de produtos, elegem o Market Place como alternativa para aumentar suas vendas e participação, com revenda ampla de produtos de outros operadores em busca de espaço de relacionamento digital.

Ao fazerem isso, amplificam o efeito estrutural e disseminam ainda mais a concorrência em preços com impacto na depressão da inflação em regiões e mercados mais amplos.

Logicamente, ainda não podemos determinar relação de causa e efeito nessa tese, ao compararmos os indicadores atuais de inflação no Brasil, surpreendentemente baixos, os menores dos últimos 18 anos, mas é possível, de forma liminar, considerar que isso também deve estar impactando esse comportamento.
Se de um lado é positivo e desejável, de outro, cria uma perspectiva que conduz a um inevitável processo de pressão competitiva e de rentabilidade dos negócios. Vale a pena pensar a respeito.

* Marcos Gouvêa de Souza é fundador e diretor-geral do Grupo GS& Gouvêa de Souza.

Fonte: Portal Newtrade

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