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Como O Boticário está se transformando em uma empresa de tecnologia

Na década passada, seria impensável ter O Boticário como um dos cases de um
evento sobre Big Data. O que uma empresa de cosméticos teria a acrescentar em
um painel com executivos da Nasa e Microsoft sobre tecnologia, afinal de contas?
No início deste mês, porém, a participação da empresa no Data Driven Business,
evento organizado anualmente pela Neoway, foi mais um exemplo de uma máxima
cada vez mais pulverizada: toda empresa, a partir de agora, deve ser tech,
independentemente do seu produto.

O Boticário entrou de cabeça neste mindset ao anunciar, no início do ano, o
primeiro perfume do mundo desenvolvido com auxílio da inteligência artificial. O
produto foi definido como “a alquimia perfeita entre homem e máquina” pelo
gerente de Perfumaria da empresa, Jean Bueno.

Segundo Tiago Martinello, gerente de Pesquisa e Desenvolvimento do Grupo
Boticário, milhares de componentes utilizados em fragrâncias foram cruzados com
milhares de dados disponíveis em redes sociais e coletados diretamente com
clientes para a criação das fragrâncias. O projeto teve participação da IBM, com a
Inteligência Artificial Phylira, e da casa de fragrâncias Symrise, que patenteou o
software.

“O sistema consegue rapidamente fazer as melhores misturas para agradar o ser
humano”, disse Martinello em entrevista ao InfoMoney. “É muito mais assertivo de
acordo com o briefing, e com isso as pessoas [funcionários d’O Boticário] têm muito
mais tempo para refinar, fazer a parte de alquimia, olhar o toque final a ser feito de
acordo com cada marca”, detalha.

A novidade chamou a atenção pelo inusitado de utilizar uma tecnologia tão
avançada para um processo reconhecidamente artesanal. Segundo o executivo, a
ideia é observar a demanda para utilizar eventualmente em outros produtos – sem
pressão para aplicar tecnologia em todas as fragrâncias. No futuro, uma releitura
premium dessa ideia seria a criação de um produto exclusivo para cada cliente
utilizando a mesma tecnologia e suas preferências pessoais.

Mas não só
Lançar um único produto baseado em tecnologia não é suficiente para trazer uma
empresa à nova era. Segundo Martinello, há inúmeras estratégias dentro da
empresa para usar tecnologia de forma a melhorar processos, da área comercial à
de operações. Cerca de 6% da receita do grupo é aplicada na área de Pesquisa e
Desenvolvimento.

Na área de cuidados com a pele, por exemplo, a linha Nativa Spa utiliza a tecnologia
para criar as soluções buscadas por clientes cada vez mais exigentes criadas pelo
boom do skincare. Outros projetos existem, mas não são divulgados pela empresa
para não atiçar a concorrência.

Para apresentar esta imagem, foi inaugurada no mês passado a Boticário Lab, uma
loja conceito em Curitiba que oferece experiências com realidade amentada,
espelho interativo de maquiagem, retirada de compras do e-commerce e outros
serviços para criar maior aderência entre consumidor e marca. Está em estudo
expandir esse formato para outras praças.

Fim do trabalho humano?
Não existem planos à vista para diminuir o quadro de funcionários, garante o
executivo. “O objetivo é conseguir ser mais rápido e assertivo”, aponta, “existe toda
uma parte de alquimia que envolve muita profissionalização e muito trabalho
artesanal”.

Avon e Natura
Inovar é, claro, uma forma de se destacar na multidão. O Boticário não comenta,
mas é válido lembrar que a concorrente Natura está em franca expansão e pode se
tornar a quinta maior fabricante de cosméticos do mundo caso conclua a compra da
Avon.

Se o negócio vingar, a concorrência ficaria significativamente menor para a empresa
criada. A Natura poderia cortar o quadro de funcionários e otimizar o abastecimento
gerando economia de R$ 445 milhões, segundo as estimativas de analistas do
Bradesco BBI. Também aumentariam a competitividade em vendas diretas e a
exposição ao mercado internacional (um relatório do Brasil Plural fala em “entrada
pela porta da frente” nos EUA).

Nos últimos anos, as duas gigantes vêm incorporando e criando marcas e crescendo
na velocidade da cobrinha do jogo ‘Snake’ dos celulares Nokia “tijolo” do século
passado. Em 2012, a Natura comprou a Aesop; em 2017, a The Body Shop. Já O
Boticário tem as marcas Eudora, Quem Disse, Berenice?, The Beauty Boxe Vult.

Fonte: InfoMoney

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