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Economia não entusiasma, mas está melhor do que parece

O PIB cresceu 0,15% no trimestre passado em relação ao anterior. Essa taxa poderia ser chamada de medíocre mesmo se tivesse sido duas ou três vezes maior porque crescer não deveria ser algo tão difícil no momento. O Brasil produziu entre julho e setembro 6% menos do que antes de uma recessão que durou quase três anos. Como o pesadelo acabou há mais de seis meses e não há restrições ao crescimento do lado da oferta, seria de se esperar que o IBGE tivesse divulgado números um pouco mais generosos.

Além disso, a economia mundial vai de vento em popa. Nada menos do que 26 dos 30 principais países que divulgaram resultados para o terceiro trimestre apresentaram expansão maior do que a nossa – o G20 provavelmente cresceu cinco vezes mais. A evolução brasileira pós-recessão tem sido mais parecida com a de tartarugas consagradas como Itália e Japão. Que bom que deixamos de crescer como rabo de cavalo, mas preocupa o fato de estarmos ainda pesados como se fôssemos um país rico do G7.

Para piorar, os dados conhecidos de outubro sugerem que o quarto trimestre começou devagar. Diante disso, como um pessimista de carteirinha é capaz de sugerir que seus colegas de profissão podem estar demasiadamente cautelosos?
Uma possibilidade é que eu esteja redondamente errado. Apostar contra o Brasil normalmente é uma estratégia vitoriosa – o país tem optado pelo atraso com alguma frequência. Além disso, o consenso é poderoso e, em geral, aproxima-se mais da verdade. Por mais que queiramos acreditar, é impossível derrotá-lo sistematicamente. O consultor econômico supera esse embaraço porque tem no cérebro um mecanismo que o induz a memorizar os acertos e a esquecer dos erros. Sem essa adaptação biológica seria insuportável praticar o ofício.

Ainda assim, uma análise mais minuciosa dos números recentes revela detalhes que pintam um quadro menos desanimador do que o atestado pelo crescimento pífio e pela tibieza dos indicadores de outubro. Como a questão mais importante no momento é inferir o ritmo em que o Brasil recuperará nos trimestres vindouros o terreno que perdeu nos anos de retrocesso, é elucidativo inspecionar mais detidamente o desempenho dos principais vetores da demanda.

Os dispêndios para consumo e investimentos apresentaram um crescimento bem decente entre julho e setembro. A expansão desses gastos havia sido praticamente nula no início do ano. Em termos anualizados, ela passou de 3% ao ano no segundo trimestre para quase 4% no terceiro. Esse impulso expressivo da demanda não gerou um PIB mais vistoso porque parte do estímulo “vazou” para o exterior. De fato, as importações cresceram quase 30% no período.

Evidentemente, seria melhor para o bem-estar da população se nosso setor produtivo tivesse condições de atender uma fatia maior da demanda adicional, contribuindo para diminuir mais rapidamente o desemprego. A falta de competitividade da indústria manufatureira é um dos gargalos que restringem o potencial de crescimento no longo prazo. Miseravelmente, não há como expandir esse potencial sem reformas estruturais profundas que mexam com interesses cristalizados.

Se não houvesse ociosidade, portanto, um cenário de forte crescimento das importações tenderia a levar o déficit em transações correntes para região desconfortável, pressionando a inflação. Passado um tempo, o crescimento cairia por bem ou por mal, dependendo do grau de populismo dos timoneiros – o governo passado, por exemplo, rasgou o manual e jogou o país na pior recessão da história.
Atualmente, no entanto, não há o menor sinal de aquecimento excessivo, muito pelo contrário – o déficit externo, além de modesto, é ainda cadente e a inflação segue surpreendendo para baixo. Sendo assim, a forte expansão das importações deve ser interpretada como um sinal de vitalidade da economia, apesar delas entrarem com sinal negativo no PIB.

No trimestre passado, a soma de exportações e importações, grandeza conhecida por “corrente de comércio”, cresceu mais de 20% em termos anualizados, um recorde em mais de sete anos. Esse resultado reflete a retomada cíclica da economia mundial, que favorece as vendas para o exterior, e o fortalecimento da demanda doméstica, que estimula importações. Após atingirem o “fundo do poço” em maio passado, as importações de bens de capital, que costumam antecipar o crescimento, aumentaram quase 30% até outubro. No mínimo, isso mostra que a retomada em curso tem consistência.

Na verdade, o desempenho da demanda interna ao longo de 2017 tem sido bem parecido com o que se observou nos três primeiros trimestres da saída da recessão de 1998/99 – que, diga-se, não foi das mais rápidas. Se este padrão se mantiver, o PIB deverá crescer entre 3,0% e 3,5%, bastando para isso duas premissas adicionais que não me parecem ser muito restritivas. Primeiro, é preciso que a relação entre importações e demanda interna não destoe da norma. Segundo, que o Brasil mantenha sua fatia de exportações no comércio mundial. Ou seja, não é preciso acreditar em um milagre para ver, daqui uns meses, a economia surpreendendo para melhor.

Duas coisas seguram o samba. Primeiro, o mercado de crédito segue travado especialmente para as empresas – e isso incomoda. A queda do juro básico para um patamar historicamente reduzido ainda não fez diferença porque os prêmios cobrados pelos bancos permanecem elevados. Creio que a segunda parte do ajuste seja apenas uma questão de tempo, mas não tenho como ter certeza disso no momento. Em segundo lugar, há a incerteza eleitoral – que, de certa forma, respinga sobre o problema do crédito. A julgar pelas pesquisas, o panorama não está legal para 2018, mas a composição do crescimento atual pode ser razão para um pouco de esperança.

Convenhamos, não faz tanta diferença material se a economia crescer um pouco mais do que os 2,5% esperados pela maioria no ano que vem – os diferenciais de crescimento são transformadores apenas quando duram bastante. Apesar disso, uma composição da demanda agregada mais favorável pode facilitar a rejeição de soluções milagrosas vendidas por vigaristas nas eleições. A sensação de bem-estar em uma economia em que a demanda interna cresce bastante, ainda que a produção patine por falta de competitividade, é bem maior do que em uma economia em que tanto a demanda interna quanto a externa caminham lentamente.

A pegadinha é que o PIB cresce pouco nos dois casos. O PIB de um país hipotético em que as famílias dobram o consumo de um ano para outro comprando importados não cresce. Mas é razoável supor que essas famílias estarão mais felizes do que as de outro país em que o PIB, consumo e importações ficam parados.

Para prever o resultado de uma eleição, portanto, é mais importante acompanhar o consumo (e a inflação) do que a produção. O povo gosta de gastar e sentir que o dinheiro tem valor, pouco interessando se os bens adquiridos foram produzidos aqui ou em outro lugar. É lógico que as farras não duram para sempre e, no longo prazo, consumo e produção precisam conversar.

Por enquanto, as retomadas do consumo, das importações e dos investimentos (de forma menos vibrante) atuam como inibidores do apetite por populismo nas eleições de 2018 – a inflação baixa também ajuda. Só Deus sabe se dará certo ou não. Mas, se as perspectivas de candidaturas mais responsáveis (ainda que insossas) ganharem corpo ao longo dos próximos trimestres, e isso está longe de ser apenas um delírio, o restabelecimento da confiança poderá desamarrar o crédito, fortalecendo a demanda e empurrando o crescimento. Fiquei desapontado com os últimos dados, mas ainda acho cedo jogar a toalha.

* Celso Toledo é doutor em economia pela USP e diretor da LCA Consultores.


Fonte: Portal Exame

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