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Marcas artesanais ganham escala com adesão ao sistema de franquias

Um produto que leva os títulos de artesanal, manual ou especial carrega a imagem
de que é feito por uma única pessoa e vendido em uma pequena loja, como algo a
ser garimpado. Porém, redes de franquias começam a quebrar esse estigma e
provam que o termo não é relacionado com a quantidade, mas sim com a qualidade
da matéria-prima e o cuidado na produção. A cafeteria Sterna Café e a marca de
óculos Livo são exemplos de negócios que abriram para o franchising para
conquistar novos clientes e ganhar escala.

Para a consultora e especialista em franchising Ana Vecchi, o desafio está na
velocidade da expansão das franquias. “A capacidade de suprir a rede com os
produtos artesanais é o que gera esse diferencial. O franqueador precisa ter visão
estratégica, seguindo o caminho: criação do produto, gestão da produção, olhar
operacional das lojas e, por fim, verificar se os franqueados permanecem com o
DNA da marca”, diz.

Em três voltas ao mundo e muitas xícaras de café tomadas em mais de 60 países,
Deiverson Migliatti se surpreendeu não só com o sabor diferente da bebida no
exterior, mas com a informação de que o grão nesses locais vinha do Brasil. Decidiu
então apostar nos cafés especiais nacionais e abriu a Sterna Café, em 2015.

A cafeteria tem o grão próprio, produzido na cidade de Buritizeiro, localizada no sul
de Minas Gerais. Com nota 85 de 100, segundo a metodologia da Specialty Coffee
Association (usada no mundo todo para avaliar cafés especiais), o grão também
recebe torra própria, feita por uma empresa parceira, e é distribuído para as 43
unidades em operação. O modelo do negócio ainda inclui cinco métodos diferentes
de extração da bebida.

Outro diferencial da marca é o ‘grão viajante’, café garimpado pelo empreendedor
em países do mundo e que fica disponível nas unidades durante um mês, como uma
edição limitada. Cerca de dois quilos desse café são distribuídos para cada unidade.
“Há clientes que mandam mensagens em nossas redes sociais pedindo para
guardarmos para eles provarem”, conta Migliatti. No mês de julho, o 'café viajante'
é um grão da Etiópia.

Promover a expansão da marca pelo franchising fez com que a marca e o produto se
tornassem mais conhecidos e acessíveis. São atendidas cerca de 115 mil pessoas por
mês em todas as unidades. O valor da xícara de café expresso é R$ 4,90 e a bebida
feita nos demais métodos de preparo custa a partir de R$ 10. Para manter o padrão,
o empreendedor apostou no treinamento dos franqueados, com imersões não
apenas sobre gestão, mas também sobre o universo do café. “Cada franqueado
passa uma semana recebendo treinamentos específicos sobre café. Nosso parceiro
que faz a torra também ministra cursos de barista. Caso um franqueado queira se
especializar ainda mais, ele tem 50% de desconto no valor do curso.”

O franqueado Fernando Oliveira foi um dos que investiu na especialização para
atrair clientela. Com a loja aberta há um ano e meio, Oliveira já fez curso de barista,
curso sobre cafés coados e se prepara para fazer um de latte arte na crema do leite.

“Não queria ficar na mão de nenhum profissional da minha equipe”, diz. Além das
formações que já possui, Oliveira busca aperfeiçoar os processos. “Comprei um filtro
de água de R$ 1,2 mil por minha conta, porque aprendi que a água faz toda a
diferença no sabor do café. Acredito que não adianta ter um grão especial e não
cuidar de todos os processos, como a regulagem das máquinas e a logística da
moagem”, diz.

Com mais de 40 etapas manuais de polimento para produzir um único óculos, que
leva de 15 a 20 dias para ficar pronto, a marca Livo, criada em 2012, também abriu
para o franchising. “Nascemos como e-commerce, mas percebemos que a presença
física era muito importante. De fato, as pessoas não estão prontas para comprar
óculos online”, conta o fundador da marca, Arthur Blaj.

A dificuldade de gerenciar a criação das peças e os pontos de venda físicos foi o que
motivou o empreendedor a investir no modelo de franquias, em 2018. “Operar
desde o design até a ponta do varejo foi muito difícil. Entendemos que para ter um
varejo eficiente era preciso tornar as pessoas donas das lojas”, diz.

Hoje, são sete franqueados e 14 unidades da Livo em quatro Estados. Segundo Blaj,
os franqueados já eram clientes da marca, por isso conheciam o produto e o tipo de
consumidor que se identifica com ela. O empreendedor completa dizendo que não
operam mais nenhuma loja própria. “Escolhemos ser o termômetro dos
franqueados e o laboratório da marca, para não perder a mão.”

Sobre ser artesanal e ganhar escala, Blaj acredita que é preciso entender o conceito
do termo. “O processo artesanal não é necessariamente limítrofe. Artesanal é ter
cuidado com cada peça, respeitar o processo de produção, utilizar uma boa matéria-
prima”, acredita.

Para a gerente de inteligência de mercado da Associação Brasileira de Franchising
(ABF), Vanessa Bretas alguns segmentos se destacam no cenário do artesanal.
“Estão em alta o segmento de alimentação, como hamburguerias, cervejas e doces.”
Além disso, Vanessa ainda afirma que o franqueador precisa deixar claro para o
franqueado se exige especialização dele ou de funcionários sobre o produto.

Fonte: Estadão

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